Copa 2010

jul
10

Alemanha: um gol contra a intolerância

Publicado às 06:30 47 comentários
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Cosmopolita, a Alemanha de Joachim Löw poderia ter ido mais longe, pelo futebol que o jovem time apresentou. Crédito: AP

Mílton Jung
Direto de Roma/Itália

Fique atento ao hino nacional alemão assim que se iniciar a cerimônia de abertura do jogo que decidirá o terceiro lugar da Copa do Mundo contra o Uruguai. Não é preciso se ater a letra ou mesmo a sonoridade - hinos costumam ser eloquentes em qualquer parte do mundo. Enquanto a câmera desfila no gramado, preste atenção no rosto daqueles jogadores. Em cada face, a melhor resposta que a Alemanha poderia dar ao capítulo mais estúpido de sua história, a mais absurda guerra racial que o mundo já assistiu.

Aparecerão brancos e negros perfilados. Olhos com traços turcos e sérvios. Narizes espanhóis e poloneses. Cabelos africanos e brasileiros. Todos vestindo a mesma camisa e defendendo a mesma nação. Uma diversidade inimaginável para um povo que teve sua vida marcada pelo regime nazista, nas décadas de 1930 e 1940.Ao elencar os 23 jogadores que disputariam o Mundial, os critérios usados por Joachim Löw foram esportivos. Nem poderiam ser diferentes. E os resultados alcançados até aqui, mesmo estando fora da final, mostram que as escolhas foram corretas. Para muitos, a Alemanha foi quem mostrou o melhor futebol deste Mundial e mereceria, inclusive, o título deste torneio.

O jovem treinador e ex-jogador alemão, porém, reuniu uma diversidade de atletas que simbolizam muito mais do que apenas uma equipe de futebol - uma equipe de futebol muito boa, ressalte-se. Onze dos atletas que foram para a África do Sul representar a Alemanha nasceram fora do país ou são de origem estrangeira. Dois de seus maiores destaques, Lukas Podolski e Miroslav Klose, são poloneses por nascimento, assim como o meia Trochowski.

Autor de um dos primeiros gols da Alemanha, nesta Copa, Cacau é de Santo André/SP. Marko Marin é da Bósnia, tem origem sérvia, e se naturalizou alemão. O pai de Jérôme Boateng é de Gana e se casou com uma alemã. Sangue africano também tem Dennis Aogo, nascido no país e com ascendência nigeriana. Sami Khedira tem pai da Tunísia. Özil e Tasci são de origem turca, enquanto Mário Gomez tem raízes espanholas em sua família.

Sabemos que na maioria das vezes estas histórias sequer são percebidas por seus protagonistas, muito mais pragmáticos nas escolhas do que a própria geopolítica do futebol possa nos parecer. Mas é sintomático que estes alemães-turcos e alemães-africanos - apenas como exemplo - estejam lado a lado disputando uma Copa construída na África, país que ainda sofre com as sombras criadas pelo apartheid.Quando Nelson Mandela imaginou levar a competição para a África do Sul, sabia que seria a oportunidade de chamar atenção do mundo para seu povo e alertar a todos sobre a necessidade de combater o racismo constantemente. Faixas são abertas diante das câmeras de televisão e capitães são convocados a ler mensagens a todo o público, mas poucas coisas podem ser mais ilustrativas na luta à intolerância do que estas seleções “globalizadas”.

E quando este sinal vem de um país como a Alemanha, seu grito é ainda mais forte. Muito mais forte e importante do que o futebol apresentado até aqui por esta ou qualquer outra seleção.

Portanto, quando o hino alemão tocar neste sábado, no lugar das vuvuzelas, tente ouvir a mensagem subliminar que a mistura daqueles rostos nos transmite. E pense como é possível no seu dia a dia ser menos intolerante com qualquer tipo de diferença.