Copa 2010

jul
06

Copa 2010: faltaram os artistas da bola

Publicado às 06:52 14 comentários
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Na praia, garotos italianos fantasiam com craques que não foram ao Mundial de 2010. Crédito: Milton Jung

Milton Jung
Direto de Ansedonia/Itália

Dois irmãos brincam na praia de Tagliata, em Ansedonia, onde fica uma das casas em que morou Puccini. Não me parecem meninos muito interessados com o que a obra criada pelo mestre da música nos oferece. Jogam futebol dentro d’água. Ou algo que se pareça com isso, pois usam muito mais as mãos do que os pés. Se divertem com uma dessas bolas de supermercado que ganham efeitos especiais com o vento que vem do Mediterrâneo.

De vez em quando, um deles tenta uma bicicleta e nas vezes que acerta, grita o nome de Ronaldo. Pela barriga do adolescente poderia pensar no Fenômeno; mas pelo malabarismo e proximidade só posso crer que se refira ao Gaúcho, que veste a camisa do Milan, por enquanto. O irmão parece torcer pela Juventus, pois se alcança a bola, narra como se fosse uma defesa de Buffon e, se espanta pra longe, chama por Cannavaro.

Pintor retrata "artistas da bola" que não puderam estar nos campos sul-africanos. Crédito: Milton Jung

Tantas as vezes que ouvi da areia da praia o nome de Ronaldo que lembrei de outra figura pela qual cruzei quando estive em Cidade do Cabo, na primeira fase da Copa. Era um pintor de rua, desses que com alguns randis na mão e muita paciência para posar fazem sua imagem, nem sempre semelhante. Na espera de clientes, ele retocava um quadro que simulava uma disputa de bola entre Ronaldinho Gaúcho, com a camisa do Brasil, e David Beckham, com a da Inglaterra.

Dadas as circunstâncias desta Copa, a obra do pintor era quase uma ficção, pois os dois craques estavam fora de campo. Ronaldinho sequer foi convocado enquanto Beckham, devido a uma lesão, ganhou o direito apenas de desfilar seus ternos no banco inglês. Perguntei ao artista por que os dois e não jogadores que estivessem disputando o Mundial: “porque eles são artistas”, respondeu.

Têm razão, tanto os meninos de Tagliata quanto o pintor do Cabo. Se é para criarmos, idealizarmos um mundo perfeito, são as estrelas que devemos exaltar. E se algo chama atenção na Copa do Mundo da África do Sul é o fato de chegar às semifinais sem um candidato a craque.

Os mais cotados até a bola rolar frustraram as expectativas do torcedor. No Brasil, sem que a Ronaldinho fosse dado o direito de brilhar, Kaká jogou pela metade. Fez poucas arrancadas, sua jogada típica, e nenhum gol. Cristiano Ronaldo, de Portugal, ensaiou passes e dribles, mas não produziu quase nada. Rooney, da Inglaterra, Drogba, da Costa do Marfim, e Eto’o, de Camarões, não foram nada bem. Messi, da Argentina, foi quem mais rendeu, mas ficou devendo um gol e sumiu quando o time precisou dele, na derrota para a Alemanha.

Das quatro seleções que disputam vaga para a final, a partir desta terça-feira, aparecem jogadores de qualidade. Na Holanda, Sneijder e Robben, e no Uruguai, Forlán; na Alemanha, Podolski, Müller, Klose e Özil, enquanto na Espanha, Villa e Iniesta. Ressalto: são jogadores de qualidade, não craques (claro que adoraria tê-los no meu time e na Seleção).

Qualquer um deles tem chances de se destacar no pôster do Campeão Mundial de 2010 - e merecem -, mas para se transformarem em personagem de uma obra de arte (ou um quadro de rua) e alimentarem a imaginação das crianças que brincam na praia, precisarão ir muito além do futebol mostrado até aqui.

Da série, você não me perguntou mas vou falar:
Torço por Fórlan contra Sneijder e Robben, apesar de saber que seria quase um milagre ter os uruguaios na final.