
Rogério de Sá é o espião que avalia possíveis adversários de Portugal nesta Copa. Crédito: Milton Jung
Milton Jung
Direto da Cidade do Cabo
Pepe tinha o número sete às costas. E formava a segunda linha de quatro homens italianos próximo do meio de campo, quando o Paraguai avançava. Assim que a bola era retomada, cabia a ele se aproximar da linha de ataque da Itália. A repetição deste movimento foi anotada em uma folha em branco protegida da chuva que despencava durante a partida pelo rapaz sentado na poltrona 45 da fileira de número cinco, no quarto andar do estádio Green Point, na Cidade do Cabo.
Não era apenas mais um dos 62.869 torcedores que foram assistir ao primeiro jogo da seleção itailiana , que defende o título mundial. Era Rogério de Sá, técnico do Bidvest Wilts, time da África do Sul, que está exercendo importante função no principal adversário brasileiro nesta primeira fase: é olheiro do técnico Carlos Queiroz, da seleção de Portugal.
Ele foi convocado por Queiroz para identificar quem são as seleções que mais podem atrapalhar o caminho dos portugueses nesta Copa. Sá havia trabalhado com o técnico de Portugal na seleção da África do Sul, entre 2000 e 2002. Nascido em Moçambique, Carlos Queiróz é visto como o embaixador do esporte luso no continente africano.
A principal preocupação do espião de Portugal, hoje, certamente, era entender a maneira dos atuais campeões atuarem e ver o que os paraguaios poderiam aprontar. Durante os 90 minutos de jogo, fez comentários a um colega que o acompanhou e várias observações que ficaram registradas em seu relatório.
No intervalo da partida, quando a vitória parcial era do Paraguai - graças ao gol de cabeça de Antolin Alcaraz - perguntei ao olheiro português se havia gostado do jogo até ali:
“Não gostei de nada até agora”, respondeu.
Os italianos voltaram para o segundo tempo sem um de seus mais experientes jogadores: o goleiro Buffon, que apresentou problemas físicos. Esta é uma posição muito estimada por Rogério de Sá, pois o pai dele, Octávio de Sá, foi “guarda-redes” do Sporting de 1954 a 1960. Deve ter tido destaque nas anotações dele, também, a maneira errada com que o paraguaio Villar saiu do gol, permitindo o empate da Itália. Se for justo, porém, terá percebido que, apesar da falha, não é um mau goleiro.
Itália e Paraguai somente serão adversários de Portugal caso a equipe de Cristiano Ronaldo chegue às quartas de final. Caso o confronto ocorra, ficou muito claro que o melhor é enfrentar os paraguaios.
Ao fim do jogo, enquanto esperava a torcida deixar o estádio, Rogério foi rápido e preciso ao comentar a atuação das duas seleções. Menos pessimista do que no intervalo, disse que gostou mais da Itália, uma seleção sempre forte. Quanto ao Paraguai, encolheu o nariz e sacudiu a cabeça: “Não tem nada”.
“E o Brasil ?” - arrisquei.
“Boa sorte pra nós”, respondeu, com simpatia. “Boa sorte pra nós”, pensei comigo.
